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Desgraça ou desonra?, ou a natureza humana?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.09.10

 

Espero (sem esperança) que a lógica da natureza humana não seja a eterna repetição de se erguer a custo (e de forma tão imperfeita) da violência feroz (instinto básico de sobrevivência), com a construção de uma camada civilizacional sobre camada civilizacional, para logo de seguida cair na lógica inicial. E cai-se sempre muito mais rapidamente do que quando nos tentamos erguer de novo. Ou talvez seja como o protagonista diz à filha: Gostaria de erradicar essa parte da minha natureza (o sexo = violência, poder). É preciso aceitar primeiro a nossa natureza, para a entender e depois transformar.

 

Poucos filmes me abanaram tanto como este Disgrace, confesso. Parece mais um documentário, acompanhamos as personagens como se fossem pessoas comuns, na vida real. E o impacto do filme vem também daí. Mas há o livro por trás, um autor que dizem ser assim mesmo, a verdade nua e crua. Que depois de Disgrace terá tido de sair da África do Sul. Não admira. Ainda não estão preparados para lidar com a verdade. Algum dia estarão? Depende do que a sua natureza lhes permitir. Afinal, nós aqui, lidamos nós com a verdade da nossa natureza? Não me parece.

 

O autor, pois. Depois de Thomas Bernhard ainda não tinha sentido a novidade da limpidez de quem escava assim a nossa natureza. Parece um contra-senso mas é assim: escavar, sondar, não é para todos. É preciso coragem e perspicácia. A literatura pode não ter ajudado Coetzee a viver na nova África do Sul, mas certamente que o ajudou a escavar e a sondar a natureza humana.

 

Ainda não li o livro, por isso procurei algumas opiniões não-especializadas ou de não-especialistas, porque sinceramente, as opiniões dos especialistas já nada me podem dar que esteja vivo, verdadeiramente vivo. Além disso, não falam para nós, pessoas comuns. Falam uns para os outros. Mas ainda gostaria de ler a opinião do Salman Rushdie, que é referida num comentário ao texto do segundo link ali atrás. (1)

 

Interessante foi a tradução do título do livro (Desgraça) que não coincide com a do Brasil (Desonra). (2)

Apesar de tudo, Desonra parece-me mais próximo do significado desta Disgrace. É que Desgraça é uma coisa que nos acontece. Desonra é uma coisa que provocámos ou que fizemos acontecer ou que nos aconteceu por algum motivo pessoal. Além disso, Disgrace soa-nos mesmo assim, como desonra. Digam lá a palavra alto e bom som: Disgrace. E vejam em que situações é utilizada. (3)

Estão a ver? Pelo que depreendo daqui que a tradução portuguesa poderá não ser muito exacta. Desculpem, mas este é um pormenor essencial: o sentido que se dá a cada palavra é fundamental.

 

O que me marcou neste filme: como já disse ali atrás, a sua construção, como um documentário, sem efeitos melodramáticos, de uma limpidez e secura.

Foi assim: um professor cinquentão solitário obedece à sua natureza predadora masculina (calma, já iremos suavizar estes termos) e perde o lugar de professor de literatura na universidade. Para já, a natureza humana nua e crua, sem contemplações. Recusa penitenciar-se publicamente, assumindo a culpa perante a universidade. A ex-mulher alerta-o para o seu futuro incerto. Vai ver a filha que vive sozinha e num local isolado, uma pequena quinta onde cultiva flores. A pouco e pouco o professor apercebe-se do avanço, lento mas seguro, do vigilante e co-proprietário da quinta, para a sua posse e domínio efectivo (da terra mas também da proprietária). E ainda assistirá impotente à maior humilhação de todas: a violação da filha por três miúdos (um deles protegido do vigilante e co-proprietário) e o silêncio que a filha escolhe. Ela escolhe a humilhação para poder permanecer na quinta. Isso para o professor é o equivalente a viver como um cão, sem liberdade nem dignidade.

 

A verdade não pode ser dita porque ninguém a quer ouvir: Mas agora está tudo bem, não está?, responde-lhe sempre, com um sorriso, o vigilante-dominador-novo predador sempre que ele toca no assunto da violação da filha. Ele é o único a querer falar, a querer ouvir a verdade. E a olhar-se ao espelho. É como se, recusada a penitência pública (e hipócrita) tivesse de fazer a penitência-castigo. Ver-se ao espelho e aceitar a sua natureza predadora para a transformar. Pedir finalmente desculpa aos pais da aluna. O círculo fecha-se. E de certo modo, aceitar a idade também, o que parece acontecer-lhe através da amizade tranquila da nova amiga veterinária.

 

Mas como será encarar um futuro assim, sem esperança? Ver a filha dominada pelo novo predador dominante, a nova cultura barulhenta, violenta, desordeira, a lei do mais forte; a sua casa na cidade, pilhada e destruída; e o seu espaço-refúgio (o novo quarto alugado) devassado pela curiosidade infantil. Como será viver completamente deslocado naquele novo mundo, onde as suas capacidades já não têm qualquer utilidade?

 

 

 

(1) Bem, ainda não encontrei o link para a opinião do Salman Rushdie, mas neste link (Longmuir, Anne - Coetzee's Disgrace. "The Explicator", 2007) a autora refere-se à opinião de Salman Rushdie, de que o protagonista faria parte dessa lógica, a consequência do colonialismo. A autora distancia-se e contrapõe com a perspectiva do protagonista. Interessante.

 

(2) Disgrace s. 1. desgraça, desfavor, desvalimento, desestima, descrédito. 2. vergonha, desonra, ignomínia. // v. desgraçar, causar desgraça a, desfavorecer, desestimar, despedir em desgraça. 2. desonrar, envergonhar, degradar.

 

(3) to be a disgrace to ser a vergonha de. to bring a disgrace on causar vergonha a. to fall into disgrace with cair no desagrado de.

 

 

 

 

Continuação 2 dias depois: ... e no entanto a tradução parece-me impecável, é o que estou agora a verificar pela leitura do livro. E digo-vos, para já, que há muito muito tempo que um livro, refiro-me a obras literárias, não me prendia assim...

Agora, uma semana depois de ter visto o filme e dois dias depois de ter pensado na melhor tradução do título, Disgrace, a opção da edição brasileira também não me agrada. Desonra, em português, soa sobretudo moralista e leva-nos logo para possíveis equívocos culturais e políticos.

Certamente os tradutores viram-se a braços com este dilema e optaram pelo mal menor. E talvez não haja um tradução exacta para Disgrace. Pelo menos para esta Disgrace.

 

Vergonha? Humilhação? É um pouco de tudo isto.Quanto à adaptação do livro ao cinema: logo que terminar a leitura, já poderei avaliar um pouco melhor.

 

 

 

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publicado às 10:46

O ponto de vista do morto, num filme de John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.10

 

Um homem que sempre viveu no território da lei do mais forte, a que aprendeu a adaptar-se e a nele sobreviver, ser surpreendido por um forasteiro formado em leis, que tinha sido abandonado quase morto por tentar defender uma dama, de um bandido temível e temido, Liberty Valance...

... sim, um homem assim ser confrontado com um idealista que acredita convictamente que é possível viver num mundo regido pela lei e pela ordem, pelos argumentos da palavra e não da arma...

... e não ser só isso, o facto deste forasteiro lhe vir alterar as ideias sobre as leis do mundo, foi sobretudo vir alterar-lhe os planos futuros... a Hallie apaixonar-se por ele... era quase inevitável, esta mania das mulheres serem maternais, protectoras... e terrivelmente românticas, aquela de ter arriscado a pele por uma dama... mas ele, por exemplo, pela Hallie, arriscaria tudo, tudo... será que ela não sabia isso?

É claro que sabia, vinha logo recorrer à sua ajuda providencial sempre que o forasteiro corria perigo. E o forasteiro tinha a terrível mania de se colocar em situações de perigo, como aquela de desafiar o Liberty Valance.

Mais uma vez salvei o forasteiro, mas só pela Hallie, tudo pela Hallie... vê-la assim inclinada sobre ele, solícita, só porque tinha um braço ferido... e o meu coração? Não viu ela, a ingrata, o meu coração a sangrar? Vá-se lá entender as mulheres, querem um homem e ficam com o rapazinho.

Afogar o desgosto em whisky, que mais pode um homem fazer em semelhantes circunstâncias? Era isso ou dar um murro no rival, mas isso estava fora de questão, salvara-o não salvara? Aí decidira tudo. Estupidamente romântico, decidira acreditar na possibilidade daquele forasteiro realizar esse sonho de implementar a lei e a ordem e de fazer a Hallie feliz.

Agora a casa já não fazia sentido, a casa para a Hallie. E a dor, a dor insuportável...

Erguer-se de novo e ainda ter forças para empurrar o forasteiro, tinha de assumir as suas responsabilidades, ser um homem, aceitar a nomeação. Afinal, se ensinara a Hallie a ler, agora tinha de lhe dar assuntos legíveis. Para isso ainda teria de lhe dizer quem é que matou o Liberty Valance. Seja.

Voltarão só para o meu funeral. A Hallie não me parece muito feliz. Pálida. Oh Hallie, talvez tivesse sido melhor tê-lo deixado morrer naquele duelo suicida com o Liberty Valance... Hallie... e vem com a flor de cacto que lhe ofereci um dia. Hallie, Hallie... preferiste esse rapazinho idealista, o que é que queres? Agora tens apenas fantasmas à tua espera, doces recordações...

 

Este é o ponto de vista do morto, o nosso herói. John Ford sabe que ele é o herói, o que abdica:

- do papel de herói, do protagonismo;

- e da Hallie, por amor, idealismo ou estupidez (com John Ford nunca se fica a saber).

O herói de John Ford não fica imune à vida, a vida fere-o, trespassa-o, fulmina-o. Às vezes apenas o desilude e cansa. Outras, revolta-o e leva-o à acção. Outras ainda, surpreende-o com a felicidade.

Aqui é o primeiro caso. O nosso herói escolhe o caminho mais difícil. E nós, ao vê-lo sofrer a perda dos seus sonhos, quase desejamos que ele não seja tão insuportavelmente nobre, que ele escolha a sua própria felicidade.

É provável que na minha primeira visão deste filme, e teria os meus trinta e tal anos, tenha simpatizado sobretudo com o papel do Jimmy Stewart. O homem idealista, o homem das leis e da ordem. O homem vulnerável e sensível. Hoje, surge-me como um homem essencialmente obcecado e egoísta, mesmo sem o saber, um imaturo, a quem as coisas acabaram por correr bem.

Se a América hoje, mediada pela lei e pela ordem, é melhor? Não sei. John Ford também deve ter formado uma opinião muito particular. A lei e a ordem, indeed! Afinal, não tivera o nosso herói que disparar sobre o bandido? O que teria sido do forasteiro sem essa ajuda preciosa, a lei da arma? O que pensaria John Ford quando colocou aqui este dilema? Secretamente, agrada-me pensar que o próprio John Ford tinha sérias reservas em relação à eficácia desta lei e ordem e que teria preferido, em certas circunstâncias muito particulares, mandar a lei e ordem às malvas e assentar um murro valente em certos sujeitinhos tipo Liberty Valance. Secretamente, também confesso que um murro bem assente resolveria muitos dilemas actuais.

 

Na verdade, já vislumbrei uma outra América, infinitamente mais livre e feliz. A América primordial, onde talvez tivesse sido possível iniciar uma história diversa. Onde a diversidade fosse possível naquela vastidão imensa... Mas o homem traz consigo a doença original e esquece o seu lado sublime.

 

 

 

 

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publicado às 14:37

A genica inesgotável das senhoras de uma certa idade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.09.10

 

Raros são os homens que mantêm esta genica na velhice, mas existem. Esta genica de que vou falar hoje é própria das senhoras de uma certa idade, a partir dos 80 e tal aninhos, as felizardas! Bem, as que têm a sorte de viver no seu espaço-tempo próprios, com alguma autonomia. Não estou a falar das que, por circunstâncias da vida, não têm essa sorte.

Já tinha constatado este fenómeno na vida real, não precisava de ver documentários ou filmes a confirmar isto mesmo. Lembro-me em especial de um documentário filmado num lar de idosos (palavra horrível), em que a senhoras se queixavam de ter perdido os maridos há anos e as que não os tinham perdido, era ainda pior!, viam-nos dormir todo o tempo sentados num cadeirão. Este desequilíbrio é terrível a partir de uma certa idade. Porque as mulheres, quando mantêm os neurónios afinados, têm uma necessidade inesgotável de comunicar, de conversar, ou de se entreter numa qualquer actividade, algumas até cantar e dançar. Neste lar as actividades eram promovidas, assim como a autonomia (se os nossos lares fossem todos assim...), e eram as mulheres as mais entusiastas. O pessoal pareceu-me especializado, não notei ali tiques de paternalismo, insuportável mania dos nossos técnicos, por melhor intencionados que sejam! Davam-se passeios de autocarro, e se não podiam ir ao teatro ou aos espectáculos, havia sempre teatro ou espectáculos a vir ao lar. Mas só alguns homens participavam na animação. A maioria ou dormitava num cadeirão ou mostrava-se alheia a tanta agitação.

 

Há, evidentemente, outras razões para este desequilíbrio: a idade é melhor para as mulheres do que para os homens, esse é um facto. No Japão, por exemplo, noutro documentário que vi, os homens encaravam muito mal o regresso a casa depois de uma vida de rotina de trabalho no exterior. Mas pior do que eles, eram as mulheres a adoecer com a presença dos homens todo o dia em casa. Têm até uma expressão muito elucidativa para designar os homens na reforma: uma folha de outono molhada colada à parede. Estão a ver? Muitas acabavam no psiquiatra e foram aconselhadas a mudar as suas rotinas: muito bem, os homens ficam em casa, elas saem de casa, há tantas actividades possíveis em grupo, cursos de arranjos de flores, por exemplo, ginástica, natação, yoga, voluntariado, ou mesmo voltar a estudar. Mesmo por cá, vemos imensas mulheres a fazer o mesmo. Embora por cá se encontrem sobretudo viúvas, que querem manter uma vida útil e activa, e não encarar a casa vazia todo o dia.

 

Se estas mulheres tiverem a sorte, como disse, de se manter activas e com alguma autonomia, podem ser extremamente perspicazes, nada lhes escapa. Os seus neurónios trabalham numa espécie de ligações rápidas e directas, em auto-estradas, e ligam só o essencial de cada problema que lhes apresentem. É certo que há ali interferências de preconceitos culturais, algum peso da tradição, o que é certo e o que é errado, o que é próprio e o que é impróprio, mas fora isso são muitíssimo práticas e inteligentes. Lembram-se daquele filme com o Peter Sellers? Em que um grupo de ladrões do pior invade a casa de uma velhinha e, quando se vêem descobertos, a tentam matar mas não são bem sucedidos? A velhinha é simplesmente uma valentona, nada a demove ou intimida!

 

Esta energia e coragem vem não se sabe de onde. Eu própria já me senti incapaz de acompanhar a genica de algumas senhoras de idade digamos assim, uma experiência nada nada edificante. Às vezes imagino-as ligadas a uma pilha Duracell, a sério! Aliás, foi o que sentiu o protagonista de um filme italiano, simplesmente delicioso, que vi semanas atrás na RTP2, Pranzo di Ferragosto. Aquele almoço em Agosto deixou-o esgotado, de rastos. E tudo começou com várias contrariedades: o mau feitio da mãe, pouco receptiva a receber convidadas em casa; uma das convidadas, amuada, que se fechou no quarto, deixando-os privados da sala de jantar para as refeições. Só a tia Maria, a especialista da pasta, se portou bem desde o início. Além de o orientar na pasta, acolheu a mãe do médico, a terceira convidada, a pedido do médico, pois estava de banco nessa noite. Contrariedades e responsabilidades: a mãe do médico vinha com restrições alimentares mas atirou-se à pasta, de noite e às escondidas, farta de comer legumes cozidos. A convidada que tinha amuado saiu de casa em plena noite sem avisar ninguém, foi descobri-la toda apinocada numa esplanada. Quando finalmente a convenceu a regressar a casa, queria jogar às cartas, dançar, e ainda se mostrou atrevidota. A paciência do nosso santo homem estava a esgotar-se. Noite mal dormida, de manhã descobre as quatro em alegres conversas, muito animadas. Investem generosamente no almoço e tudo. E ficam a pôr a mesa com todos os requintes enquanto ele vai, com um amigo, de vespa, escolher o peixinho fresco para o almoço. Almoço memorável, todos felizes, vinho fresco, conversas animadas. O nosso protagonista dá por falta do amigo e vai descobri-lo a dormir no quarto, esgotado. Desata a rir. É que ele tinha aguentado até ali. E não é que quando volta ao almoço animado, as senhoras o subornam indecentemente para mais um dia daquele alegre convívio?

Delicioso filme-documentário. Vemo-los dançar em plena sala, no final. Já tinha saudades de filmes-documentários assim... que se aproximam de forma despretensiosa da realidade do dia a dia normal (?) de tantas pessoas por esse mundo fora, vidas simples (??) ou vidas mais complicadas, mas que se podem simplificar quando existem protagonistas assim, com uma paciência de Job...

 

 

 

 

 

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publicado às 09:16

Os meus heróis: Robert Preston, o amigo franco e leal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.09.10

 

E aqui vai outro dos meus heróis, Robert Preston, o actor-personagem da franqueza mais desarmante e da amizade leal. Se o viram como eu em vários filmes devem ter reparado nesse olhar tão despido de artifícios ou sombras. Mesmo a enfrentar uma rejeição, e uma rejeição sem-cerimónias como aquela da Debbie Reynolds em How West was Won, Robert Preston não desarma, insiste com a mulher mais teimosa e arisca que tinha encontrado, que ele é que a saberá apreciar. Ainda por cima irá conhecer o seu rival e verificar que aquela mulher escolhera o homem errado, um homem que não a merece. Estas coisas acontecem, aliás estão sempre a acontecer, e não é só às mulheres, aos homens também. Desencontros, equívocos, atracções fatais.

 

Mas vamos começar pelo princípio. Porque fui eu buscar Robert Preston ao baú das memórias? Nem eu sei, mas este actor teve desde logo um efeito tranquilizante, aquele ar franco, sem artifícios, mesmo nesse insólito papel no Victor, Victoria. Nunca resisto a rever as cenas com o Robert Preston, aqui na pele de um velho drag queen, amigo leal e criativo da Julie Andrews. Desde a cena do restaurante, dois esfomeados em Paris, até ao espectáculo em que, vestido de sevilhana, canta e dança no palco. Robert Preston é o amigo das horas difíceis, criativo, divertido e generoso. Dirá sempre o que pensa, sem subterfúgios nem evasões.

 

Outro dos seus papéis mais enternecedores é muito pouco conhecido. Vi-o uma única vez na televisão, talvez nalgum ciclo dos anos 90. O próprio filme, Finnegan Begin Again, é já dos anos 80. Nele vemos um Robert Preston sessentão que se apaixona por uma mulher muito mais jovem, Mary Tyler Moore. O filme é uma magnífica inspiração para quem não quer desistir de comunicar de forma afectiva, de apoiar e ser apoiado, animar e ser animado. Encontram um no outro o apoio e o carinho. Finalmente, o Robert Preston tenta mostrar à Mary Tyler Moore que a sua diferença de idades é um problema real. A cena final foi a que registei na memória para sempre. Vemo-los deitados no chão da sala, muito descontraídos, pelo menos é assim que recordo a cena. Ele diz-lhe: Mas eu estou a cair do tripé... Ela responde: Prefiro dois anos contigo do que dez com outro homem. Se esta não é uma magnífica declaração de amor, então o que é?

 

Identifiquei-o mais recentemente num pequeníssimo papel, num filme que desconhecia e que aqui coloquei a navegar, Reap the Wild Wind. Ainda muito jovem mas já com aquela voz inconfundível.

Essa é a sua marca registada, aquela voz... uma voz grave, cantante, que nos assegura que podemos contar com ele. Uma voz assim que nos anima quando queremos desistir, que nos ajuda a ver um caminho possível. É isso que esperamos de um amigo franco e leal. Que nos ouça nas horas tardias e nos enxugue as lágrimas, como naquela magnífica cena do Victor, Victoria, quando a Julie Andrews descobre que o vestido tinha encolhido.

Ao longo destes anos de filmes tê-lo-ei visto em mais um ou dois, mas ainda não consegui identificá-los. Já corri a lista do IMDB, mas nem assim... Descobri, no entanto, que fez muita Broadway (não admira) e muita televisão (não sabia).

Robert Preston é um dos actores que me marcaram para sempre, como se fossem personagens com que interagi na vida real. O seu olhar, o seu rosto largo, e a sua voz magnífica...

 

 

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publicado às 21:39


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